18h52, já sei que ainda assim no meu relógio, o meu relógio está sempre adiantado, a tentar compensar eu estar sempre atrasada, nem sempre funciona, mas está adiantado, neste caso acho que são 9 minutos, não tenho bem a certeza mas acho que são 9, nem 5 nem 10, como dizia a outra, nem 27 nem 19, acrescento eu, são 9, mas para aqui não importa, eram 18h52, bem sei que no meu relógio, mas pronto, 18h52 e não se fala mais nisso.
18h52, e sabias que as luzes da cidade se acendem todas ao mesmo tempo? Já vivo aqui há tantos anos, 22, 21 se contares o ano fora, e já agora desconta também os outros em que vivi mas não tinha consciência do que era uma cidade, ou uma luz sequer, que pronto, uma pessoa é precoce mas não dá para tudo. Eram 18h52 e eu pestanejei, pestanejo imensas vezes, "acontece-me imensas vezes", mas desta vez foi diferente, olhei para a ponte, pestanejei, voltei a olhar para a ponte e estava tudo diferente, montes de luzinhas, pontinhos de luz sobre a ponte, tipo um daqueles frisos que fazíamos nos cadernos do 4º ano. E olho em volta e o arco da Rua Augusta (que eu nunca percebi porque é que não é avenida, a minha rua é muito mais pequena e é avenida) o arco da Rua Augusta, dizia, está agora iluminado contra o roxo deste lado do céu, e giro mais o pescoço e o Castelo também brilha, e agora que reparo nisso o amarelo dos antigos ministérios está ainda mais amarelo, e apercebo-me de que o Cristo Rei é agora uma torre de luz contra o cor-de-rosa do céu, e o céu é o único sítio onde o cor-de-rosa não é foleiro.
Levanto-me para me ir embora, tentar ir embora, é mais isso, não consigo ir sem lançar um último olhar às colunas, a imponência, senhores, a grandeza, e não sei porquê, isto é tão estúpido, "se é o que sente não é estúpido", os psicólogos estão tão bem ensinados, não sei porquê passo por elas e dá-me a sensação que me devia benzer, que estupidez, eu que faço questão de não me benzer nem numa igreja, por respeito ao que sei que significa para quem coiso, mas desta vez vai-se a ver e deu-me para isto, se calhar é por serem as portas de tudo, se calhar é por já sentir ao longe o ar do mar (e agora ia escrever 'mar' e juro que me saiu 'amor', isto ele há coisas) mas olho para as colunas e sinto que devo baixar a cabeça em sinal de respeito, pelo menos isso, qualquer coisa, não sei, surge a urgência de homenagear o que para mim é o tal de sagrado, porque só o sagrado é que faz isto às pessoas, não é?
Já fui tantas coisas aqui, isto faz-me lembrar a primeira vez que entrei na Basílica de São Pedro, desatei num pranto e não conseguia parar, aquilo era tudo demasiado grandioso para me caber, então chorava, chorava, chorava, a ver se abria espaço cá dentro para caber tanta beleza, chorei durante séculos, nunca mais saía dali, mas tem graça, acho que nunca coube. E agora percebo que é sempre assim, venho aqui desde sempre e é sempre assim, esta urgência de homenagear, esta sensação de que é o mínimo que posso fazer, um aceno de cabeça, uma bênção interior, um "obrigadinha por tudo", e acabo por me aperceber, a sorrir, de que foi assim, foi por isto mesmo que decidi que o mínimo que podia fazer, ou então o máximo, ainda estou para perceber, era uma barca e dois corvos, na nuca, tudo bem, ou noutro sítio qualquer.
E é sempre esta sensação neste sítio, esta urgência de homenagem e a urgência de escrever mais rápido do que aquilo que as mãos acompanham, sempre o rabo já dorido de estar sentado há demasiado tempo na pedra dura, sempre as mãos demasiado geladas para manterem uma caligrafia perceptível, sempre o frio a entrar pelas frinchas do casaco (os casacos também têm frinchas, ou são só as janelas?), sempre as lágrimas nos olhos, do vento frio e do overwhelming, continuo sem tradução para esta palavra, talvez lhe possa chamar Lisboa que é mais rápido. E sempre You Can't Win, Charlie Brown a baterem-me palminhas aos ouvidos, e o cérebro num misto entre papa emocional e a calma que só se tem quando se sabe que se vive na cidade mais perfeita que existe, e o cérebro a debitar coisas que as mãos já não conseguem escrever, e não faz mal, vamos andando, último sorriso em direcção ao rio, piscar de olho em direcção ao Castelo, que amanhã por esta hora as luzes da cidade acendem todas ao mesmo tempo outra vez.
28 fevereiro 2012
Óscares, ou outra noite qualquer
Sabes que tens os melhores amigos do mundo quando eles:
. entram pela tua casa adentro com comida debaixo do braço, começam a cozinhar sem pedir licença, e fazem jantar a mais a contar com o teu almoço do dia seguinte;
. assumem que vão dormir em tua casa, sem sequer perguntar;
. te trazem uma mala cheia de chocolates, batatas fritas, cachorros quentes e pipocas porque sabem que é esse o ritual;
. não te acordam quando saem de manhã porque sabem que só tens aulas à noite;
. ocupam o teu sofá sem qualquer tipo de cerimónia;
. não te deixam dormir a queixar-se que comeram demais.
E sabes que gostas mesmo mesmo deles, quando:
. a tua preocupação quando eles adormecem no sofá é tapar-lhes os pés com uma mantinha;
. percebes que só faz sentido ver os Óscares em directo há 10 anos porque é com eles.
. entram pela tua casa adentro com comida debaixo do braço, começam a cozinhar sem pedir licença, e fazem jantar a mais a contar com o teu almoço do dia seguinte;
. assumem que vão dormir em tua casa, sem sequer perguntar;
. te trazem uma mala cheia de chocolates, batatas fritas, cachorros quentes e pipocas porque sabem que é esse o ritual;
. não te acordam quando saem de manhã porque sabem que só tens aulas à noite;
. ocupam o teu sofá sem qualquer tipo de cerimónia;
. não te deixam dormir a queixar-se que comeram demais.
E sabes que gostas mesmo mesmo deles, quando:
. a tua preocupação quando eles adormecem no sofá é tapar-lhes os pés com uma mantinha;
. percebes que só faz sentido ver os Óscares em directo há 10 anos porque é com eles.
26 fevereiro 2012
Juro que isto acabou de me acontecer.
Estava eu sozinha em casa, refastelada no sofá, a ver um qualquer programa culturalmente interessante (*cof*TLC*cof*) quando toca o telefone de casa.
Levanto o rabo do sofá e vou até ao telefone, resmungando entredentes a pensar quem raio é que me estaria a ligar para casa àquelas horas.
"217... Espera lá... Eu conheço este número. Este... Este é o MEU número."
Pausa.
"Este é o meu número DE CASA."
THE CALL IS COMING FROM INSIDE THE HOUSE.
Mas não, era só a minha mãe a estrear a nova aplicação que lhe permite usar o número de casa a partir do iPhone .
Levanto o rabo do sofá e vou até ao telefone, resmungando entredentes a pensar quem raio é que me estaria a ligar para casa àquelas horas.
"217... Espera lá... Eu conheço este número. Este... Este é o MEU número."
Pausa.
"Este é o meu número DE CASA."
THE CALL IS COMING FROM INSIDE THE HOUSE.
Mas não, era só a minha mãe a estrear a nova aplicação que lhe permite usar o número de casa a partir do iPhone .
23 fevereiro 2012
*#%$&/=?
Estou há 7 horas com um torcicolo tão grande, que estou a considerar seriamente a hipótese de não ir às aulas hoje, não só pela dor que me faz grunhir de raiva por não me conseguir mexer, mas pelo perigo que neste momento represento se estiver ao volante de um carro.
É muito ridículo aparecer na faculdade com uma daquelas almofadas de caroços de cereja que se aquecem no microondas enrolada à volta do pescoço? É que é capaz de não fazer pandã com o material de laboratório.
É muito ridículo aparecer na faculdade com uma daquelas almofadas de caroços de cereja que se aquecem no microondas enrolada à volta do pescoço? É que é capaz de não fazer pandã com o material de laboratório.
19 fevereiro 2012
Também gosto muito de ti, mãe.
Mãe: "Ah e tal, quando fomos ao sítio tal, lalala..."
Eu: "Sim, isso foi em 2009."
Mãe: "Mas como é que tu sabes sempre as datas assim de repente?!?"
Eu: "Sei lá, mãe, lembro-me."
Mãe: "Ai... Tu és esquisita!"
Eu: "Sim, isso foi em 2009."
Mãe: "Mas como é que tu sabes sempre as datas assim de repente?!?"
Eu: "Sei lá, mãe, lembro-me."
Mãe: "Ai... Tu és esquisita!"
17 fevereiro 2012
Chapulines
Dado que faz hoje um ano que cheguei ao México, faz sentido que tenha sido hoje o dia em que provei um gafanhoto frito pela primeira vez. Estou do lado errado do mundo, mas ainda assim.
Este post vai ser extremamente mediano para qualquer biólogo que ande por aí.
Ou mesmo para qualquer pessoa que tenha estado em Ciências no Secundário, na realidade. No entanto, como eu sou uma pobre criatura de Humanidades, a minha vida atingiu um novo nível hoje. Porque o segundo semestre do 1º ano do meu mestrado acabou de se tornar mesmo, mesmo interessante.
Tivemos hoje a primeira aula de Técnicas Laboratoriais em Psicobiologia, e apesar de algumas pessoas serem da opinião de que "as primeiras aulas de laboratório são sempre uma seca", eu nunca tinha estado mais do que 5 minutos num laboratório, portanto estava em modo criancinha-na-véspera-de-Natal.
Explicaram-me a parte teórica, passaram-me uma pipeta para as mãos, deixaram-me ligeiramente nervosa com as regras de segurança, e deixaram-me brincar um bocado. Mas mais do que isso deixaram-me consciente da responsabilidade que vamos ter ao longo das próximas semanas, dado que vamos estudar a actividade cerebral em peixes que NÓS vamos manipular.
Mas a primeira aula é sempre teórica, não é? Até ao momento em que dou por mim em frente a um aquário com um único peixe, a ver 2 gramas de anestésico serem despejadas lá para dentro. E depois, não sei como, dou por mim em frente a um microscópio, luvas calçadas, bisturi numa mão, pinça na outra, peixinho (já morto) no tabuleiro por baixo do microscópio, com a prof ao meu lado a dizer "vá, agora fazes uma incisão aqui, cortas o músculo com um golpe profundo e removes os pedaços de crânio, com cuidado para não danificar o cérebro". Ou qualquer coisa desse género, porque a única coisa que conseguia ouvir era o meu coração a bater-me nos ouvidos. Está bem que o peixinho já está morto, mas basta um movimento em falso e esta investigação vai toda com o camandro, para não falar da péssima impressão com que me ia carimbar imediatamente.
Ignorando a rápida imagem mental do meu pai a arranjar o peixe para o jantar, lá uso o bisturi para (tentar) expor o cérebro. Prof: "Isto tem de ser rápido, quanto mais tempo demorarmos mais rapidamente o cérebro se começa a desfazer". Não, na boa, sem pressão. Do nada deixo de sentir a mão esquerda, e de repente oiço um estrondo metálico. Olho para baixo e vejo a pinça no tabuleiro. A prof rosna: "Temos de ter muito cuidado com o material, basta isto cair verticalmente e acabou-se." Bacano. Enquanto começo a pensar se não teria sido melhor fazer um mestrado em corte-e-costura, lá pego na pinça outra vez, encosto os olhos à lupa do microscópio e tento coordenar os movimentos, sem olhar directamente para as mãos ou para o tabuleiro. O que parece meio metro de distância à lupa é para aí meio milímetro na realidade, mas dado que temos de ver tudo através do microscópio não podemos olhar directamente para o que estamos a fazer, o que torna a coordenação motora -matéria na qual já normalmente sou grande profissional, diga-se de passagem- um desafio interessante.
Prof: "Pronto, o cérebro assim já está exposto, agora usa a pinça para puxar o telencéfalo, e corta-o na base com o bisturi." Olho através da lupa. Gosma cinzenta all over. É suposto eu saber distinguir qual destas pseudo-bolinhas é que é o telencéfalo? Pensamento: "Isto com as corzinhas e as legendas dos slides era bem mais fácil...". Respiro fundo. Tento agarrar a pseudo-bolinha que teoricamente correspondia ao telencéfalo com a pinça. A bolinha escorrega. Tento agarrá-la outra vez. A p*** escorrega outra vez. Juro que consigo ouvir a sua vozinha a rir-se para mim enquanto mostra os dentes todos e diz "problem?". Agarro-a com todas as forças que o indicador e o polegar oponível me permitem, com a certeza absoluta que aquela merda vai explodir e espirrar matéria cinzenta por todo o lado. Ela aguenta. Uso o bisturi para a separar do resto do cérebro. Ela aguenta-se. YEY! Abro um dos tubos previamente identificados para o efeito, atiro a bolinha para dentro da solução, fecho o tubo, enfio-o numa taça cheia de gelo e levanto-me da cadeira a cantar interiormente a 'We Are The Champions'.
Eu sei, eu sei, sou uma criança e isto não é nada. Mas foi a minha primeira aula em laboratório. Nunca tinha sequer visto um cérebro animal, quanto mais manuseá-lo com material "cirúrgico" e microscópios xpto e compostos com nome esquisito. Deixem-me lá sentir-me um bocado Derek Shepherd, vá, só desta vez.
Tivemos hoje a primeira aula de Técnicas Laboratoriais em Psicobiologia, e apesar de algumas pessoas serem da opinião de que "as primeiras aulas de laboratório são sempre uma seca", eu nunca tinha estado mais do que 5 minutos num laboratório, portanto estava em modo criancinha-na-véspera-de-Natal.
Explicaram-me a parte teórica, passaram-me uma pipeta para as mãos, deixaram-me ligeiramente nervosa com as regras de segurança, e deixaram-me brincar um bocado. Mas mais do que isso deixaram-me consciente da responsabilidade que vamos ter ao longo das próximas semanas, dado que vamos estudar a actividade cerebral em peixes que NÓS vamos manipular.
Mas a primeira aula é sempre teórica, não é? Até ao momento em que dou por mim em frente a um aquário com um único peixe, a ver 2 gramas de anestésico serem despejadas lá para dentro. E depois, não sei como, dou por mim em frente a um microscópio, luvas calçadas, bisturi numa mão, pinça na outra, peixinho (já morto) no tabuleiro por baixo do microscópio, com a prof ao meu lado a dizer "vá, agora fazes uma incisão aqui, cortas o músculo com um golpe profundo e removes os pedaços de crânio, com cuidado para não danificar o cérebro". Ou qualquer coisa desse género, porque a única coisa que conseguia ouvir era o meu coração a bater-me nos ouvidos. Está bem que o peixinho já está morto, mas basta um movimento em falso e esta investigação vai toda com o camandro, para não falar da péssima impressão com que me ia carimbar imediatamente.
Ignorando a rápida imagem mental do meu pai a arranjar o peixe para o jantar, lá uso o bisturi para (tentar) expor o cérebro. Prof: "Isto tem de ser rápido, quanto mais tempo demorarmos mais rapidamente o cérebro se começa a desfazer". Não, na boa, sem pressão. Do nada deixo de sentir a mão esquerda, e de repente oiço um estrondo metálico. Olho para baixo e vejo a pinça no tabuleiro. A prof rosna: "Temos de ter muito cuidado com o material, basta isto cair verticalmente e acabou-se." Bacano. Enquanto começo a pensar se não teria sido melhor fazer um mestrado em corte-e-costura, lá pego na pinça outra vez, encosto os olhos à lupa do microscópio e tento coordenar os movimentos, sem olhar directamente para as mãos ou para o tabuleiro. O que parece meio metro de distância à lupa é para aí meio milímetro na realidade, mas dado que temos de ver tudo através do microscópio não podemos olhar directamente para o que estamos a fazer, o que torna a coordenação motora -matéria na qual já normalmente sou grande profissional, diga-se de passagem- um desafio interessante.
Prof: "Pronto, o cérebro assim já está exposto, agora usa a pinça para puxar o telencéfalo, e corta-o na base com o bisturi." Olho através da lupa. Gosma cinzenta all over. É suposto eu saber distinguir qual destas pseudo-bolinhas é que é o telencéfalo? Pensamento: "Isto com as corzinhas e as legendas dos slides era bem mais fácil...". Respiro fundo. Tento agarrar a pseudo-bolinha que teoricamente correspondia ao telencéfalo com a pinça. A bolinha escorrega. Tento agarrá-la outra vez. A p*** escorrega outra vez. Juro que consigo ouvir a sua vozinha a rir-se para mim enquanto mostra os dentes todos e diz "problem?". Agarro-a com todas as forças que o indicador e o polegar oponível me permitem, com a certeza absoluta que aquela merda vai explodir e espirrar matéria cinzenta por todo o lado. Ela aguenta. Uso o bisturi para a separar do resto do cérebro. Ela aguenta-se. YEY! Abro um dos tubos previamente identificados para o efeito, atiro a bolinha para dentro da solução, fecho o tubo, enfio-o numa taça cheia de gelo e levanto-me da cadeira a cantar interiormente a 'We Are The Champions'.
Eu sei, eu sei, sou uma criança e isto não é nada. Mas foi a minha primeira aula em laboratório. Nunca tinha sequer visto um cérebro animal, quanto mais manuseá-lo com material "cirúrgico" e microscópios xpto e compostos com nome esquisito. Deixem-me lá sentir-me um bocado Derek Shepherd, vá, só desta vez.
12 fevereiro 2012
The Iron Lady
Não vou aqui discutir o filme, não vou aproveitar este post para recomendar os cinemas do Campo Pequeno, nem sequer vou entrar pelo tema do stand de gomas que existe ao lado das bilheteiras... (hmmm, gomas!)
No entanto adorava que me explicassem, isso sim, que raio de moda é essa agora de baterem palmas no cinema no final de um filme. Acharam que os actores foram fascinantes e por isso mereciam o miminho, pensavam que se estava a passar tudo em directo tipo reality-show-TVI, ou simplesmente confundiram-se ao entrar na sala e pensavam que estavam a testemunhar uma aterragem no aeroporto do Funchal?
No entanto adorava que me explicassem, isso sim, que raio de moda é essa agora de baterem palmas no cinema no final de um filme. Acharam que os actores foram fascinantes e por isso mereciam o miminho, pensavam que se estava a passar tudo em directo tipo reality-show-TVI, ou simplesmente confundiram-se ao entrar na sala e pensavam que estavam a testemunhar uma aterragem no aeroporto do Funchal?
10 fevereiro 2012
o-que-é-que-você-me-foi-fazer-ao-cabelo-mulher
Sempre ouvi dizer (na realidade disseram-me na semana passada, mas ainda assim) que há 3 pessoas com quem uma mulher nunca deveria ser vaga naquilo que diz: com a sua melhor amiga, com o seu ginecologista e com a sua cabeleireira.
Claramente devia ter prestado mais atenção à terceira parte. Aparentemente não é assim tão óbvio que o meu objectivo para 2012 não era parecer um cogumelo com braços e pernas.
Claramente devia ter prestado mais atenção à terceira parte. Aparentemente não é assim tão óbvio que o meu objectivo para 2012 não era parecer um cogumelo com braços e pernas.
04 fevereiro 2012
Que deus tenha piedade da minha alma
Tenho a casa toda a cheirar a pipocas queimadas. Tenho de abrir as janelas... Vai ter que ser.
Estão 4ºC lá fora, e ainda só são 20h10.
Abrir as janelas todas, enrolar-me numa manta e rezar pelo melhor? Ou ignorar o cheiro e esperar pelos primeiros raios de sol de amanhã para proceder à situação?
A vida é feita de escolhas difíceis.
Estão 4ºC lá fora, e ainda só são 20h10.
Abrir as janelas todas, enrolar-me numa manta e rezar pelo melhor? Ou ignorar o cheiro e esperar pelos primeiros raios de sol de amanhã para proceder à situação?
A vida é feita de escolhas difíceis.
02 fevereiro 2012
Estou a exactamente a 24 horas da liberdade.
Vão ser 9 dias de férias, a começar amanhã exactamente às 22h30.
Mas para lá chegar terei de passar primeiro pelas (aprox.) 22 horas de trabalho árduo e estudo intenso que se impõem entre nós. Qual príncipe encantado num cavalo branco a atravessar o bosque mágico e a matar o dragão para resgatar a princesa. Só que em mais fixe, porque a princesa neste caso são as férias. E eu sou o príncipe encantado...?! Ok, se calhar preciso de melhorar as minhas metáforas. Mas pronto, posso fazer isso nas férias.
Portanto vá, pessoal, tudo a fazer um forcing nos pensamentos positivos na direcção do Campo Pequeno antes do xixi-cama de hoje à noite!
Mas para lá chegar terei de passar primeiro pelas (aprox.) 22 horas de trabalho árduo e estudo intenso que se impõem entre nós. Qual príncipe encantado num cavalo branco a atravessar o bosque mágico e a matar o dragão para resgatar a princesa. Só que em mais fixe, porque a princesa neste caso são as férias. E eu sou o príncipe encantado...?! Ok, se calhar preciso de melhorar as minhas metáforas. Mas pronto, posso fazer isso nas férias.
Portanto vá, pessoal, tudo a fazer um forcing nos pensamentos positivos na direcção do Campo Pequeno antes do xixi-cama de hoje à noite!
29 janeiro 2012
Hoje confirmei que realmente qualquer coisa pode parecer espectacular, se for dita no tom certo.
Porque senhora minha mãe, preocupada (mais preocupada do que eu) por saber que tenho exame amanhã, disse-me há bocado, em tom mega-entusiasta-quase-a-falar-com-uma-criança-de-5-anos: "Já acabámos de jantar e ainda são 21h15! Isso quer dizer que ainda temos mais de uma hora até começar o episódio de 'Downton Abbey' [que é a nossa série-fetiche do momento]... Vamos levantar a mesa rápido, e assim ainda temos mais de uma hora para trabalhar antes de vermos a série, boa?!?"
E a criança de 5 anos que trago dentro de mim foi extremamente rápida a dizer: "boa!!!" em voz alta, até que a pseudo-adulta de 22 anos que de vez em quando também pára por aqui perceber que esse plano implica que eu estude Neurociências com o estômago cheio de bacalhau cozido e vinho tinto. E nesse caso passo, obrigadinha.
E a criança de 5 anos que trago dentro de mim foi extremamente rápida a dizer: "boa!!!" em voz alta, até que a pseudo-adulta de 22 anos que de vez em quando também pára por aqui perceber que esse plano implica que eu estude Neurociências com o estômago cheio de bacalhau cozido e vinho tinto. E nesse caso passo, obrigadinha.
28 janeiro 2012
Teve de ser.
Voltei.
Teve de ser.
Não porque ano novo, vida nova, mas porque há coisas que são grandes demais para ficarem só minhas, apesar de ninguém ter (ou querer ter) nada a ver com isso.
Deixou de ser um blog de Erasmus, porque eu já não sou Erasmus. Segui em frente (teve de ser) e o blog também. E por isso não vou retomar. Não vou recomeçar de onde parei. Há 8 meses pelo meio, e 8 meses é muita coisa. Vou, isso sim, contando o que fizer sentido, se fizer sentido e se houver paciência (porque toda a gente sabe que a paciência é sempre um factor determinante).
Pelo meio mudámos de ano (mudámos de muita coisa, mas parece que também de ano). E se no ano passado quis felicidade, este ano vou lutar por ter Excelência.
Excelência académica, mais que tudo, que já era tempo (so far, so good). Mas excelência implica também escolher tomar decisões das quais me orgulho. Mesmo que custem. E isso inclui -decidi eu- não me contentar com menos do que o melhor daquilo que sinto que mereço.
Ter a inteligência para perceber que se queres muito uma coisa, lutas por ela, e se não queres, então não lutas (que também é muito válido) mas também não refilas.
No fundo, escolher tomar decisões das quais me orgulho. Não por serem as mais certas, as mais fáceis, as mais naturais, as que doem menos, as mais acessíveis, as mais brilhantes aos olhos de toda a gente, mas sim por serem aquelas que me deixam com aquela calma que só vem com a sensação de dever cumprido. A consciência tranquila de quem deu tudo, e está bem com isso.
Decisões concretas, nas quais depois no entanto se evita pensar concretamente, porque doem e nos estragam o dia e nos fazem riscar o papel de raiva que já não nos lembrávamos que tínhamos e que nos fazem aperceber que ainda bem que tomámos as decisões certas porque afinal o assunto está menos bem disfarçado do que parecia.
Por isso 2012, I'm doing it right - apesar de irritar e de doer e de me fazer amuar e de às vezes (quando não se pode ignorar mais, porque às vezes tem de ser) me provocar umas raivas momentâneas que me fazem escrevinhar o papel com uma caligrafia desgovernada que nem sei de onde saiu e que usa abreviaturas que normalmente não me permito e que ocupa uma linha inteira com apenas 5 palavras.
E assim a consciência de que porra, sou tão feliz, sou tão feliz apesar de às vezes ser tão irritante, sou tão feliz porque tenho a consciência de que fiz a escolha certa, apesar de ser a que dói como nada e que me fez arriscar tudo.
Decidi que 2012 vai ser metáfora para poker, e que eu fiz -e escolho continuar a fazer, todos os dias- ALL IN.
Teve de ser. E já não era sem tempo.
Teve de ser.
Não porque ano novo, vida nova, mas porque há coisas que são grandes demais para ficarem só minhas, apesar de ninguém ter (ou querer ter) nada a ver com isso.
Deixou de ser um blog de Erasmus, porque eu já não sou Erasmus. Segui em frente (teve de ser) e o blog também. E por isso não vou retomar. Não vou recomeçar de onde parei. Há 8 meses pelo meio, e 8 meses é muita coisa. Vou, isso sim, contando o que fizer sentido, se fizer sentido e se houver paciência (porque toda a gente sabe que a paciência é sempre um factor determinante).
Pelo meio mudámos de ano (mudámos de muita coisa, mas parece que também de ano). E se no ano passado quis felicidade, este ano vou lutar por ter Excelência.
Excelência académica, mais que tudo, que já era tempo (so far, so good). Mas excelência implica também escolher tomar decisões das quais me orgulho. Mesmo que custem. E isso inclui -decidi eu- não me contentar com menos do que o melhor daquilo que sinto que mereço.
Ter a inteligência para perceber que se queres muito uma coisa, lutas por ela, e se não queres, então não lutas (que também é muito válido) mas também não refilas.
No fundo, escolher tomar decisões das quais me orgulho. Não por serem as mais certas, as mais fáceis, as mais naturais, as que doem menos, as mais acessíveis, as mais brilhantes aos olhos de toda a gente, mas sim por serem aquelas que me deixam com aquela calma que só vem com a sensação de dever cumprido. A consciência tranquila de quem deu tudo, e está bem com isso.
Decisões concretas, nas quais depois no entanto se evita pensar concretamente, porque doem e nos estragam o dia e nos fazem riscar o papel de raiva que já não nos lembrávamos que tínhamos e que nos fazem aperceber que ainda bem que tomámos as decisões certas porque afinal o assunto está menos bem disfarçado do que parecia.
Por isso 2012, I'm doing it right - apesar de irritar e de doer e de me fazer amuar e de às vezes (quando não se pode ignorar mais, porque às vezes tem de ser) me provocar umas raivas momentâneas que me fazem escrevinhar o papel com uma caligrafia desgovernada que nem sei de onde saiu e que usa abreviaturas que normalmente não me permito e que ocupa uma linha inteira com apenas 5 palavras.
E assim a consciência de que porra, sou tão feliz, sou tão feliz apesar de às vezes ser tão irritante, sou tão feliz porque tenho a consciência de que fiz a escolha certa, apesar de ser a que dói como nada e que me fez arriscar tudo.
Decidi que 2012 vai ser metáfora para poker, e que eu fiz -e escolho continuar a fazer, todos os dias- ALL IN.
Teve de ser. E já não era sem tempo.
18 maio 2011
Retomando...
Deixando viagens, férias, não-fazer-nenhuns e caminhadas de 8 horas pelas montanhas para trás (que noutro post explicarei, prometo!) chegou o grande dia: amanhã é o meu primeiro exame do semestre. Oral, que é como se quer.
Mais uma vez demonstrando a eficácia italiana (não fosse eu ficar desiludida) a professora da cadeira não me respondeu aos 140 mails que lhe mandei a perguntar qual era o programa para o exame... Portanto não faço ideia do que é que era suposto ter estudado. (Pois, ir às aulas às vezes dá jeito...)
Assim sendo, ontem em desespero de causa fui ver o programa do ano passado. Lá estava um livro que foi a própria professora que escreveu, que eu não acredito que tirem do programa assim dum ano para o outro... Portanto voilà, solução de microondas: hoje acordei cedo e fui para biblioteca estudar esse livro, a ver se amanhã tenho sorte.
(Sorte = o livro ser do programa deste ano, a mulher não me perguntar nada de outros livros, perguntar o que eu estudei no dia de hoje e passar!)
Claro, o mais que pode acontecer é não passar... Mas sempre é melhor que não ir lá e ir só à segunda chamada que é em Junho, porque depois posso ter um azar nesse e ter de voltar a Itália em Julho para a terceira chamada (nãaaaaaaooo, que a 30 Junho já eu quero ter a boca cheia de pastéis de Belém regados a Ucal!)
Ou seja: exame oral em italiano, para o qual estudei um dia... Bambi mode - ON!
Mais uma vez demonstrando a eficácia italiana (não fosse eu ficar desiludida) a professora da cadeira não me respondeu aos 140 mails que lhe mandei a perguntar qual era o programa para o exame... Portanto não faço ideia do que é que era suposto ter estudado. (Pois, ir às aulas às vezes dá jeito...)
Assim sendo, ontem em desespero de causa fui ver o programa do ano passado. Lá estava um livro que foi a própria professora que escreveu, que eu não acredito que tirem do programa assim dum ano para o outro... Portanto voilà, solução de microondas: hoje acordei cedo e fui para biblioteca estudar esse livro, a ver se amanhã tenho sorte.
(Sorte = o livro ser do programa deste ano, a mulher não me perguntar nada de outros livros, perguntar o que eu estudei no dia de hoje e passar!)
Claro, o mais que pode acontecer é não passar... Mas sempre é melhor que não ir lá e ir só à segunda chamada que é em Junho, porque depois posso ter um azar nesse e ter de voltar a Itália em Julho para a terceira chamada (nãaaaaaaooo, que a 30 Junho já eu quero ter a boca cheia de pastéis de Belém regados a Ucal!)
Ou seja: exame oral em italiano, para o qual estudei um dia... Bambi mode - ON!
27 abril 2011
22 março 2011
Mexico lindo y querido
Já passou uma semana - o jet lag persiste, as saudades aumentam.
Os mexicanos tocam nas pessoas. Chegamos e eles abraçam-nos, como se fossemos família. Acolhem-nos como se fossemos amigos desde sempre. Talvez por isso as lágrimas nos olhos de todos, nossos e deles, quando partimos três semanas e meia depois.
Não sei escolher palavras para explicar o México. Fico-me por suspiros e sorrisos saudosos e não sei sair disso. Talvez porque não haja palavras. Tão, tão cliché... Eu sei. Mas então nesse caso alguém me explique como é que se traduzem 26 dias, 5 viagens de avião, 3000 kms em viagens de autocarro, 21 cidades/povos, dois oceanos, 8 GB de fotografias e um milhão de histórias para contar num só post. Vá, desafio-vos.
Bom, fica o possível por enquanto: estive dois dias cheia de medo do que me podia acontecer. Depois relaxei e percebi que a Cidade do México não é, como toda a gente diz na Europa, "a cidade mais perigosa do mundo". É grande que se farta, lá isso é verdade - nós chegámos de noite e as luzes que cobriam a cidade iam literalmente até à linha do horizonte. Ah, e o mito do smog também é real - quando fizemos Mérida-DF de avião durante a tarde viu-se bem a capa de poluição que cobre a cidade. Mas mais do que tudo isso sentiu-se a altitude. A brincar, a brincar, os 2200 metros chegaram para me dar tonturas durante umas horas. (Eu sei, sou uma menina.)
Fora isso, não tivemos quaisquer problemas. Até deu para irmos à Guatemala e tudo. (Pronto, foram só 15 minutos, mas foi o suficiente para quase dar um ataque cardíaco a senhora minha mãe.)
Por agora fica a visão geral e uma tentativa frustrada de mostrar as cores do México. Agora tenho outra mala para fazer, que amanhã aterro em Berlim. Há quem diga que eu não tenho sanidade mental. Eu às vezes concordo.
(à esquerda Guatemala, à direita México)
(sim, isto é um papagaio a comer o pequeno-almoço do Duarte)
(Biblioteca Vasconcelos - é absolutamente impressionante, google it!)
(é muito reconfortante que a polícia use estes blusões...)
16 fevereiro 2011
DF
Olhando para trás, todas as coisas espectacularmente loucas que fiz (umas mais loucas que outras) me mudaram a vida para melhor. E antes de todas elas, sem excepção, senti sempre uma sensação de nervosinho no estômago. Mais do que isso, eventualmente todas elas me fizeram soltar um "Se calhar é melhor não ir..." na véspera do acontecimento.
Junho de 2005, ir não sei quantos dias de férias para um T2 na Ericeira com dez macacos, dos quais conhecia bem apenas um.
Março de 2006, peregrinação a Santiago de Compostela.
Outubro de 2008, largar tudo e ir para Amesterdão duas semanas.
Agosto de 2009, partir um mês em Interrail pela Europa com duas das pessoas que mais amo neste mundo, mas que são também das que têm personalidades mais difíceis de gerir.
Setembro de 2010, deixar Lisboa, família e amigos e ir viver para Itália um ano.
Fevereiro de 2011, partir um mês para o México.
Cidade do México. México DF. Segundo toda a gente com quem falo, a cidade mais perigosa do mundo.
O sentimento "Se calhar não devia ir..." é hoje mais forte do que nunca. O que só pode significar que vai ser a viagem da minha vida :)
Até Março!
Junho de 2005, ir não sei quantos dias de férias para um T2 na Ericeira com dez macacos, dos quais conhecia bem apenas um.
Março de 2006, peregrinação a Santiago de Compostela.
Outubro de 2008, largar tudo e ir para Amesterdão duas semanas.
Agosto de 2009, partir um mês em Interrail pela Europa com duas das pessoas que mais amo neste mundo, mas que são também das que têm personalidades mais difíceis de gerir.
Setembro de 2010, deixar Lisboa, família e amigos e ir viver para Itália um ano.
Fevereiro de 2011, partir um mês para o México.
Cidade do México. México DF. Segundo toda a gente com quem falo, a cidade mais perigosa do mundo.
O sentimento "Se calhar não devia ir..." é hoje mais forte do que nunca. O que só pode significar que vai ser a viagem da minha vida :)
Até Março!
15 fevereiro 2011
Cartao Dominó
Estava ontem a estudar na biblioteca, já naquela fase do desespero em que só de olhar para os livros já me parto a rir sozinha, quando caiu em mim uma verdade incontestável: o tempo em que a Blitz ainda era O Blitz era muito mais fácil. Era um tempo de aulas invariavelmente das 8h30 às 13h30, de senhas da cantina e de jogos de futebol no pátio. Era um tempo em que eu já chegava 20 minutos atrasada às aulas, mas em que a culpa ainda era da minha mãe e não minha. Era tempo de dizer "Bom dia stora!" quando entrava na sala, de a atravessar com calma apesar da aula já estar a decorrer, de me ir sentar no meu lugar de sempre, ao lado das pessoas de sempre, com tempo ainda para distribuir um ou dois 'hi fives' a quem me rodeava antes do rabo tocar na cadeira.
Era um tempo em que os professores sabiam os nossos nomes, e em que os números de aluno tinham apenas um digito e nao seis. Um tempo de lugares marcados, de faltas de material e de sacos de educaçao física recheados de sapatilhas e de roupa mal cheirosa. Tempo de me chamarem "ressacada" apenas porque chegava com cara de sono às aulas. Tempo de ler 'O Senhor dos Aneis' pela primeira vez, numa sala onde passava a Rádio Cidade e onde as pessoas jogavam matraquilhos sem garrafas de cerveja nem cinzeiros sujos à vista. Tempo de adorar os dias de reunião de pais por serem os dias em que podíamos ficar todos juntos no recreio até muito perto da hora de fecho da escola. Tempo de viver intensamente a excitação que antecipava uma festa de anos, principalmente quando envolvia dormirmos todos em casa de um de nós. Tempo de jogar ao 'Verdade ou Consequência' com um nervosinho no estômago. Tempo de sair da escola à socapa para fumar os primeiros cigarros. Tempo de comprar a 'Bravo'. Tempo de 'mandar toques' como principal forma de comunicação.
Era um tempo em que ainda se ligava para casa, e em que se passavam duas horas ao telefone com a melhor amiga dia sim dia não. Um tempo de conversas de meninas em que se discutia clandestinamente o que seria afinal um orgasmo. Tempo em que amizade significava trocar as capas coloridas dos Nokia 3310. Tempo em que dar linguados era uma ousadia. Tempo de ter cadernos do Harry Potter. Tempo de ficar duas horas na fila do Garage às 6as feiras à noite, e depois esperar pela boleia dos pais à porta. Tempo em que a palavra 'forever' nao era foleira mas sim essencial.
Tempo de passar bilhetinhos nas aulas (no nosso caso folhas A4 escritas até ao ultimo cm2) e tempo de irmos todos almoçar ao AC Santos e de cada um comprar um pão, uma fatia de queijo e outra de mortadela. Tempo em que loucura era roubar vernizes na loja do chinês. Tempo de comprar exactamente 0.50€ em gomas na Chequiná. Tempo de pedir pensos higiénicos à 'contina', porque nos veio 'a chica' e nao estávamos à espera. Tempo de ter notas de 1 a 5 e de ficar triste quando se recebia um 'Satisfaz'. Tempo de levar recados na caderneta. Tempo de aprender a jogar Copas e de fazer visitas de estudo em que a parte mais fixe era irmos todos juntos na camioneta (quanto mais longe melhor). Tempo de dizer 'buedá fixe' e de escrever com k's. Tempo de sentir o terror de ser a última escolhida para as equipas de futebol nas aulas de Educação Física, mas de pular de contentamento quando alguém informava que "hoje é basquet". Tempo de ouvir Silence 4 nas aulas de EVT.
Tempo em que os pais divorciados eram menos do que os pais casados. Tempo em que sair das aulas às 18h30 era deprimente. Tempo de começar a gostar de andar no Gregoriano. Tempo em que a decisão mais importante que se avizinhava nas nossas vidas era escolher para que área se ia no Secundàrio. Tempo de ler e reler o 'Viagem ao Mundo da Droga'. Tempo de sentir que aqueles só podiam ser os melhores anos das nossas vidas. Tempo de "morrer na praia" com um 49%, tempo de chamar "Vaca Aurora" à prof. de Matemática e de fazer os TPC's de inglês na própria aula. Tempo de sentir que as aulas serviam mais para estarmos juntos do que para outra coisa. Tempo de provas de aferição e de testes psicotécnicos. Tempo de entrar na biblioteca da escola apenas para requisitar livros da colecção 'Uma Aventura'. Tempo de ler 'Calvin' aos sábados de manha.
Era tempo de ler um livro em que um estudante universitário dizia 'Nunca me disseram que para andar na Faculdade era preciso ler tanta coisa!' e pensar que era de certeza um exagero. Tempo de só ter "amigos" e não "colegas". Tempo de ir ao cinema à tarde e em grupo (ao Londres, sempre ao Londres) e tempo de acreditar que o Cinema Alvalade ainda ia acabar de ser construido antes de nós acabarmos o 9° ano. Tempo de viajar no banco de trás do carro e de esperar junto ao rádio para gravar as músicas preferidas numa cassete (músicas que ficavam invariavelmente sem os primeiros 5 ou 6 segundos). Tempo de sonhar alto e sem pressa, por saber que a vida estava aí a caminho. Tempo de fazer amigos que nessa altura ainda não sabíamos que iam ser para a vida. Tempo de não ter liberdade, não ter autonomia, não ter namorado e não ter dinheiro próprio, mas ainda assim ser incontestavelmente feliz.
Tempo de chamar toda a gente por diminutivos. Tempo de ler O Blitz nas aulas com o Rú, o G, a Fifi, o Dé e a Nês. Os tais que afinal foram para a vida.
Quem não andou na Eugénio é um ovo podre.
Era um tempo em que os professores sabiam os nossos nomes, e em que os números de aluno tinham apenas um digito e nao seis. Um tempo de lugares marcados, de faltas de material e de sacos de educaçao física recheados de sapatilhas e de roupa mal cheirosa. Tempo de me chamarem "ressacada" apenas porque chegava com cara de sono às aulas. Tempo de ler 'O Senhor dos Aneis' pela primeira vez, numa sala onde passava a Rádio Cidade e onde as pessoas jogavam matraquilhos sem garrafas de cerveja nem cinzeiros sujos à vista. Tempo de adorar os dias de reunião de pais por serem os dias em que podíamos ficar todos juntos no recreio até muito perto da hora de fecho da escola. Tempo de viver intensamente a excitação que antecipava uma festa de anos, principalmente quando envolvia dormirmos todos em casa de um de nós. Tempo de jogar ao 'Verdade ou Consequência' com um nervosinho no estômago. Tempo de sair da escola à socapa para fumar os primeiros cigarros. Tempo de comprar a 'Bravo'. Tempo de 'mandar toques' como principal forma de comunicação.
Era um tempo em que ainda se ligava para casa, e em que se passavam duas horas ao telefone com a melhor amiga dia sim dia não. Um tempo de conversas de meninas em que se discutia clandestinamente o que seria afinal um orgasmo. Tempo em que amizade significava trocar as capas coloridas dos Nokia 3310. Tempo em que dar linguados era uma ousadia. Tempo de ter cadernos do Harry Potter. Tempo de ficar duas horas na fila do Garage às 6as feiras à noite, e depois esperar pela boleia dos pais à porta. Tempo em que a palavra 'forever' nao era foleira mas sim essencial.
Tempo de passar bilhetinhos nas aulas (no nosso caso folhas A4 escritas até ao ultimo cm2) e tempo de irmos todos almoçar ao AC Santos e de cada um comprar um pão, uma fatia de queijo e outra de mortadela. Tempo em que loucura era roubar vernizes na loja do chinês. Tempo de comprar exactamente 0.50€ em gomas na Chequiná. Tempo de pedir pensos higiénicos à 'contina', porque nos veio 'a chica' e nao estávamos à espera. Tempo de ter notas de 1 a 5 e de ficar triste quando se recebia um 'Satisfaz'. Tempo de levar recados na caderneta. Tempo de aprender a jogar Copas e de fazer visitas de estudo em que a parte mais fixe era irmos todos juntos na camioneta (quanto mais longe melhor). Tempo de dizer 'buedá fixe' e de escrever com k's. Tempo de sentir o terror de ser a última escolhida para as equipas de futebol nas aulas de Educação Física, mas de pular de contentamento quando alguém informava que "hoje é basquet". Tempo de ouvir Silence 4 nas aulas de EVT.
Tempo em que os pais divorciados eram menos do que os pais casados. Tempo em que sair das aulas às 18h30 era deprimente. Tempo de começar a gostar de andar no Gregoriano. Tempo em que a decisão mais importante que se avizinhava nas nossas vidas era escolher para que área se ia no Secundàrio. Tempo de ler e reler o 'Viagem ao Mundo da Droga'. Tempo de sentir que aqueles só podiam ser os melhores anos das nossas vidas. Tempo de "morrer na praia" com um 49%, tempo de chamar "Vaca Aurora" à prof. de Matemática e de fazer os TPC's de inglês na própria aula. Tempo de sentir que as aulas serviam mais para estarmos juntos do que para outra coisa. Tempo de provas de aferição e de testes psicotécnicos. Tempo de entrar na biblioteca da escola apenas para requisitar livros da colecção 'Uma Aventura'. Tempo de ler 'Calvin' aos sábados de manha.
Era tempo de ler um livro em que um estudante universitário dizia 'Nunca me disseram que para andar na Faculdade era preciso ler tanta coisa!' e pensar que era de certeza um exagero. Tempo de só ter "amigos" e não "colegas". Tempo de ir ao cinema à tarde e em grupo (ao Londres, sempre ao Londres) e tempo de acreditar que o Cinema Alvalade ainda ia acabar de ser construido antes de nós acabarmos o 9° ano. Tempo de viajar no banco de trás do carro e de esperar junto ao rádio para gravar as músicas preferidas numa cassete (músicas que ficavam invariavelmente sem os primeiros 5 ou 6 segundos). Tempo de sonhar alto e sem pressa, por saber que a vida estava aí a caminho. Tempo de fazer amigos que nessa altura ainda não sabíamos que iam ser para a vida. Tempo de não ter liberdade, não ter autonomia, não ter namorado e não ter dinheiro próprio, mas ainda assim ser incontestavelmente feliz.
Tempo de chamar toda a gente por diminutivos. Tempo de ler O Blitz nas aulas com o Rú, o G, a Fifi, o Dé e a Nês. Os tais que afinal foram para a vida.
Quem não andou na Eugénio é um ovo podre.
13 fevereiro 2011
A última semana envolveu:
- acordar novamente às 6h da manhã, esperar 2 horas absolutamente aterrorizadoras para no fim passar com 22/30 no exame oral de Neurocienze feito pelo regente da cadeira (que tem ar de poucos amigos);
- perceber que afinal a pior coisa do mundo não são os minutos antes de entrar em palco para uma audição de violoncelo, mas sim os minutos antes de fazer um exame oral em italiano;
- iniciar a maratona de filmes nomeados para os Óscares deste ano;
- ver (e ficar extremamente desapontada com) o último filme do Woody Allen;
- ter um acidente de bicicleta que me lixou a perna direita, que neste momento me impede de sair de casa por não conseguir descer 5 andares a pé sem ganir de dor mas que me fez ganhar um pouco mais de respeito pelo sistema de saúde italiano;
- perceber que comprar bicicletas roubadas traz mau karma;
- perceber que tenho muita sorte em ter colegas de casa que me trazem a comida à cama;
- tentar mudar o design do blog, o designer de modelos falhar a meio e não conseguir retroceder nem avançar com a mudança (daí o actual aspecto horroroso do cabeçalho);
- compreender (boas) mudanças internas que não faço ideia como é que aconteceram;
- fazer um trabalho em inglês que me valeu a nota de 30/30 na cadeira de Psicologia della gestione delle risorse umane;
- perceber que tenho três exames nos próximos dois dias e que não faço a mais pequena ideia de como é que vou passar no de amanhã;
- perceber que daqui a 5 dias vou para a Cidade do México e que ainda não faço ideia do que é que vou enfiar na mala;
- esperar sinceramente que deixar este continente por 3 semanas e meia signifique deixar tudo o que me chateia também para trás... nem que seja só por esse tempo.
O balanço? É sempre positivo, claro. Mas desconfio que os medicamentos para as dores também ajudam nesse campo.
- perceber que afinal a pior coisa do mundo não são os minutos antes de entrar em palco para uma audição de violoncelo, mas sim os minutos antes de fazer um exame oral em italiano;
- iniciar a maratona de filmes nomeados para os Óscares deste ano;
- ver (e ficar extremamente desapontada com) o último filme do Woody Allen;
- ter um acidente de bicicleta que me lixou a perna direita, que neste momento me impede de sair de casa por não conseguir descer 5 andares a pé sem ganir de dor mas que me fez ganhar um pouco mais de respeito pelo sistema de saúde italiano;
- perceber que comprar bicicletas roubadas traz mau karma;
- perceber que tenho muita sorte em ter colegas de casa que me trazem a comida à cama;
- tentar mudar o design do blog, o designer de modelos falhar a meio e não conseguir retroceder nem avançar com a mudança (daí o actual aspecto horroroso do cabeçalho);
- compreender (boas) mudanças internas que não faço ideia como é que aconteceram;
- fazer um trabalho em inglês que me valeu a nota de 30/30 na cadeira de Psicologia della gestione delle risorse umane;
- perceber que tenho três exames nos próximos dois dias e que não faço a mais pequena ideia de como é que vou passar no de amanhã;
- perceber que daqui a 5 dias vou para a Cidade do México e que ainda não faço ideia do que é que vou enfiar na mala;
- esperar sinceramente que deixar este continente por 3 semanas e meia signifique deixar tudo o que me chateia também para trás... nem que seja só por esse tempo.
O balanço? É sempre positivo, claro. Mas desconfio que os medicamentos para as dores também ajudam nesse campo.
09 fevereiro 2011
Ultimato #2
É só eu voltar a acordar às 9h da manhã com Kylie Minogue aos berros. Ainda por cima posso sempre alegar insanidade temporária, como o Renato Seabra. Vai ser uma limpeza.
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